Catalogação e Pesquisa
ACERVO PESSOAL LEONILSON
Leonilson deixou em testamento para sua mãe todos os seus bens, artísticos e pessoais. Por decisão da herdeira, com apoio da família, os itens foram reunidos em coleção e deixados sob cuidados e administração do Projeto Leonilson, que os organizou e separou, constituindo dois tipos de acervo: artístico e pessoal.
Os trabalhos do Projeto Leonilson tiveram início com o acervo artístico, composto por obras, materiais e documentação relacionados à produção artística de Leonilson, com atividades voltadas ao levantamento, pesquisa, rastreamento e catalogação de obras e coleções. Como parte fundamental na compreensão da trajetória do artista, em paralelo, buscavam-se documentos, registros e bibliografia sobre sua vida e obra.
O acervo pessoal contempla os materiais, itens e documentos de cunho pessoal do artista, acumulados ao longo de sua vida, que refletem aspectos de sua trajetória pessoal, familiar, social e profissional. Sob custódia do Projeto Leonilson, os itens passaram por um breve processo interno de separação, acondicionamento e arquivo, esperando a hora certa para serem devidamente inventariados.
Em 2023, passados 30 anos da morte de Leonilson, a instituição conseguiu, através de projeto aprovado pela Lei Rouanet, com patrocínio do Itaú, iniciar oficialmente a pesquisa e catalogação do Arquivo Pessoal de Leonilson.
Apesar de naturezas e finalidades diferentes, os dois tipos de acervo se sobrepõem e se complementam. O levantamento, a identificação, a classificação e o registro de ambos são processos essenciais para a preservação, compreensão e valorização da trajetória de Leonilson.
O acervo pessoal de Leonilson é composto por uma diversidade de materiais que complementam sua arte: agendas; cadernos de anotação; gravações em áudio; registros fotográficos; textos e poesias; biblioteca; correspondências; materiais de trabalho; objetos; coleção particular de obras; documentos administrativos e de identificação. Esse material compõe um conjunto de valor inestimável tanto para a história da arte quanto para os estudos museológicos e arquivísticos.
Processo fundamental para a preservação, interpretação e valorização da trajetória de Leonilson, a catalogação do arquivo pessoal permite a reconstituição das escolhas, dos trajetos, das redes de sociabilidade, dos percursos criativos e dos contextos de produção que marcaram a vida do artista. Especialmente no caso de Leonilson, cuja construção artística é profundamente ligada à experiência pessoal, incluindo questões de identidade, espiritualidade, sexualidade e saúde, o acesso qualificado a esse material possibilita leituras mais sensíveis e contextualizadas de sua obra.
No entanto, importa considerar que se trata de itens e materiais que são extensão sensível da existência do artista, de suas relações e intimidade. São objetos do cotidiano que compõem um universo paralelo silencioso, sobretudo quando se considera a privacidade do próprio Leonilson e de terceiros envolvidos. Nem tudo foi preservado com o intuito de se tornar público. Muitas vezes esse acervo revela aspectos emocionais, afetivos, psicológicos e relacionais que o artista, em vida, optou por manter para si.
Além disso, são registros que envolvem diretamente outras pessoas: familiares, amigos, parceiros, colegas de profissão e personalidades. A exposição leviana desse conteúdo pode afetar não somente Leonilson, mas também a memória e reputação dessas pessoas, especialmente quando feita inapropriadamente, sem o devido contexto, com base em interpretações precipitadas ou pessoais.
Frente a essa complexidade, é essencial que o trabalho com o acervo pessoal seja realizado com cautela, escuta, sensibilidade, profissionalismo e responsabilidade. Lidar com esse tipo de material exige não apenas um olhar técnico, mas também cuidados éticos constantes. Preservar a memória de um artista não é apenas organizar documentos, é mediar camadas de vida, respeitar silêncios e escolher com cuidado o que e como tornar visível.
Reconhecido como dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, Leonilson construiu uma obra potente, marcada pela subjetividade, pelo uso da linguagem escrita nos trabalhos e por um forte caráter autobiográfico — elementos que se desdobram de maneira particularmente rica em seus bens pessoais. O inventário desse acervo, orientado por princípios técnicos e éticos, além de assegurar a integridade e a autenticidade das informações e documentos, constitui uma fonte primária importantíssima para curadores, críticos, estudantes, pesquisadores e admiradores de Leonilson. Ao tornar acessível e inteligível o universo documental do artista, reafirma-se o compromisso do Projeto Leonilson com a democratização do patrimônio cultural e com a construção de narrativas plurais e inclusivas no campo da arte brasileira.
ACERVO PESSOAL EM NÚMEROS
O projeto durou ao todo 30 meses, os itens do acervo pessoal do Leonilson foram separados, higienizados, restaurados, pesquisados, digitalizados, fotografados, transcritos, catalogados e acondicionados em arquivos apropriados.
Ao todo foram registrados:
- 17 agendas
- 34 cadernos de anotação
- 50 documentos administrativos, profissionais e de identificação
- 1.200 registros fotograficos
- 100 itens de material de trabalho
- 700 objetos e coleções
- 30 obras de arte de coleção particular
- 470 livros da biblioteca pessoal
- 19 fitas microcassetes
- 680 correspondências
- 200 textos e poesias


